Parasitas


Olá, humanos.

Eu sou a Deka Pimenta e esta é uma adaptação de um conto que foi publicado em meu blog pessoal, inspirado no comportamento cotidiano da maioria. No início, envolvia somente pessoas. Mas poucas alterações igualam e ele serve pra qualquer realidade. Se quiser, confira a versão original.

Tinha cinco anos e a mãe o levou para o playground do parque. A tia acompanhou porque elas tinham muito o que conversar. Para ele a novidade era achar o parquinho vazio. Ter o balanço só pra ele e o escorrega sem fila.

Afastou-se dos bancos onde a mãe e a tia sentaram e começou brincando de fazer montinhos de areia. Ainda era cedo e a areia estava molhada do sereno. Depois de cansar dos montinhos, deixou-se cair sentado e mirou o céu azul por alguns minutos. Não pensou muito no tamanho daquilo, ou de onde vinha aquela cor. Só lembrou-se da mãe apontando pra imensidão quando contou do lugar onde a avó estava morando agora.

Mas quando se sentou no balanço, notou algo dentro do tubo de concreto que não estava lá nos outros dias. Parecia um ursinho de pelúcia sujo, mas respirava.

Aproximou-se sem medo, apenas com curiosidade. Acocorou-se e ficou a observar o ursinho sujo que estava vivo. Primeiro ele só respirou. Mas logo o perfume de talquinho lhe chamou a atenção e o cão ergueu o focinho para encará-lo. O garoto se assustou com o movimento repentino e caiu sentado. Depois riu e estendeu a mãozinha para acariciar-lhe o cocoruto.

_Você mora aqui? Por que não dormiu na sua casa?

O cão não respondeu. Apenas cheirou-lhe a mão e tornou a deitar.
O garoto entortou a cabeça para o lado, pensando que era muito melhor dormir em casa.

_Mas sua mãe tá aonde?

O cão moveu a orelha para o afago. O menino novamente se viu sem entender. Não ter mãe estava além do que o mundo já lhe havia oferecido como experiência. Então resolveu ignorar e matar outra curiosidade.

_É legal morar no parquinho?

Um leve estremecimento passou pelo corpo do cachorro. Estava com frio. Isso o menino entendeu. Então pensou que além de frio, ele devia estar com fome.

_Tenho um lanche que minha mãe sempre traz. Vou lá pegar pra você.

Levantou-se e correu até a mãe.

_Mamãe, conheci um cachorro que mora no parquinho!

_É, filho? Que legal!

_Me dá o bolinho pra eu dividir com ele?

_Deixe-me limpar suas mãos primeiro. Tome. – Entregou a embalagem aberta ao filho e voltou-se para a irmã – Então quando nos encontramos de novo…

O filho não ficou para ouvir o resto da conversa, já que a mãe, a princípio, não pareceu muito interessada no seu assunto. Correu até o tubo com a merenda.Entregou metade do bolinho para o animal, que devorou sua parte e em seguida olhou cobiçoso para a outra que ainda estava nas mãos do garoto. Um súbito entendimento o fez estender também a sua porção a ele.

O cão devorou tão rapidamente quanto antes. A criança entendeu que ele estava feliz por ser alimentado.

_De nada. Pode comer. Em casa tem mais. Aí você pode esperar até sua mãe trazer a sua comidinha.

De repente, lá no fundo, o menino sentiu que o cão não tinha uma mãe para levar-lhe a comidinha. Um fio gelado de realidade passou pelo seu coraçãozinho ingênuo e ele começou a pensar coisas terríveis como não ter mãe, casa ou algo pra comer.

Então ele teve uma grande ideia:

_Já sei! Você pode morar lá em casa, até a gente acha uma mãe pra você! Mãee! A gente pode…

Não foi necessário terminar a frase. A mãe, que ao fim de alguns segundos estranhou o que o filho lhe dissera, apareceu em suas costas, pegando-lhe pelas axilas e o afastando o mais rápido possível de lá.

_Você não pode chegar perto desse vira-lata! Ele pode ter raiva!

_Não tem não, mãe! Ele só tinha fome. Precisa de uma casa e uma mãe.

_Ela é sujo. Não pode ficar perto dele. Vai te passar pulgas. E sarna.

A mãe parecia bastante assustada ao afastar-se apressadamente.

Foi então que veio a segunda grande descoberta daquele dia: cachorros que moravam na rua eram sujos, tinham raiva, sarna e pulgas. Não devia aproximar-se deles.

O tempo veio e ele cresceu do jeito que a mãe lhe ensinou: ignorando a realidade que não lhe dizia respeito e atirando algumas moedas para ongs de vez em quando para acalmar a consciência. Mas de longe, para que não pegasse pulgas.

Confira as fotos da feira de adoção do último sábado, clicando aqui.

1 Response so far »

  1. 1

    Laura Sotelo said,

    Que pena… o que o filho pegou da mãe foi bem pior do que as pulgas que o pobre cachorrinho poderia transmitir: seja egoísta e mau; ignore o sofrimento dos outros, não ajude ninguém se não levar vantagem nenhuma com isso… Enfim, apodreça o mundo com suas atitudes!
    Nossa! Não tinha percebido como um cachorro pode ser tão mais nobre do que um ser humano! ( Pensando bem, para falar a verdade, já tinha percebido sim!!! )


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